quinta-feira, 1 de outubro de 2020.

A Igreja sustenta o mundo seja com sua presença seja com suas obras. E o mundo, por sua vez, sempre teve dificuldade de demonstrar gratidão. Em nossos dias é cada vez mais patente não só tal ingratidão, mas também aversão e perseguição a tudo que se refira a civilização plasmada pela fé e cultura católica. As manifestações que culminaram com atos de vandalismo a monumentos de eminentes figuras da civilização ocidental são sintomáticas a esse respeito. E a propósito de tais ocorrências cada vez mais frequentes uma voz, a do excelentíssimo prelado, o Bispo de Acalá de Henares, na Espanha, D. Juan Antonio Reig Pla, se fez bradar: “Os bárbaros estão de volta!” (Homilia de 21 de junho de 2020).
Brevíssimo foi o período de paz experimentado pela Igreja após três longos séculos de cruenta perseguição aos cristãos em todo Império Romano quando começam a desabar como um enxame de gafanhotos sobre a lavoura hordas de todas as partes de além fronteiras: eram os bárbaros. Quem eram? De onde vinham? Com que intenção vinham? São perguntas que tentaremos responder nesse artigo. Assim como tratar o modo como a Igreja os recebeu e o que, em última análise, surgiu deste encontro. E visto que uma série de situações históricas superadas com o estabelecimento da Igreja parecem retornar com uma ferocidade alarmante, no intitulado neopaganismo e na supracitada barbárie, é preciso olhar para a História para entender do que se trata, e sobretudo olhar para a Igreja para saber como reagir a tais ataques.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICAOs bárbaros de outrora
Originalmente ‘bárbaro’, assumido dos gregos, indica estrangeiro, isto é, oriundo de além das fronteiras do Império Romano. Etimologicamente, do sânscrito bárbarah, quer dizer tartamudo, isto é, o que fala uma língua ininteligível, estrangeira. A palavra identificava, portanto, os povos que não pertenciam ao Império Romano, e também por causa dos acentos linguísticos diversos, assim como usos e costumes diversos daquele romano.
No encontro com a fé cristã, já propagada e instalada no Império, estes são povos pagãos, e além dos costumes rudes, idólatras e supersticiosos que consistiam, em determinados casos, inclusive em sacrifícios humanos. Possuíam caráter belicoso e cultura pouco evoluída ou degradada; embora, alguns, fossem atraídos pela civilização greco-romana no tocante ao poder e suas comodidades, e trouxessem consigo determinados valores que mais tarde foram aproveitados na formação da cristandade. Todavia, qualitativamente, o termo evoluiu, e não sem razão, para identificar pessoa inculta, grosseira e cruel – como não deixará de se ver no processo de invasão.
O encontro entre os bárbaros e a civilização romana é um encontro complexo tanto na questão do tempo, pois durará vários séculos, quanto das populações bárbaras, que formavam um imenso quebra-cabeças, pois havia entre elas diferenças físicas, psicológicas e comportamentais. É possível, todavia, agrupar em três mundos as populações que se encontravam: o mundo romano, à bacia do Mediterrâneo; o bárbaro, oriundo da Europa nórdica, germanos e eslavos; e o bárbaro asiático ou amarelo (Saénz. p. 224).
Não é possível dizer que o mundo greco-romano fosse totalmente desconhecido para os bárbaros, ao contrário era um mundo com o qual já tinham contato e que exercia fascínio sobre eles (D. Rops. p. 68). É provável que agitados e pressionados pelo avanço dos hunos, oriundos da Ásia, aquelas tribos também buscassem novo habitat, com terras férteis e ensolaradas, dentro das fronteiras do Império. Assim como devido à decadência moral e política do Império que assim apresentava-se enfraquecido diante dos povos ao seu redor sedentos de despojos do poderio romano, pois tratava-se de povos inclinados à guerra e às conquistas em busca de abundantes pilhagens.
Francos, saxões, lombardos, burgúndios, alamanos – considerados os mais perigosos por serem muito belicosos e pelas frequentes incursões (Rops. p. 67). Também os marcomanos, rúgios e hérulos, menos importantes. Depois de que os germanos, vândalos, já descritos como “homens terríveis, hábeis nos estratagemas de guerra” (Rops. id.). E os godos, divididos em dois grupos: ostrogodos e visigodos. Anglos e jutos, esquiros, noruegueses, getas e suecos, eslavos e vênedos, quados e gépidas, e mongólicos dentre os quais destacam-se os hunos. Conjunto esse que D. Rops define como o “enorme quebra-cabeças bárbaro” (id.).
As diferenças se davam no plano físico, mas também no plano moral e psicológico. “Os burgúndios eram “bons brutos” alegres e sem maldade, os alamanos passavam por ferozes e ásperos nas pilhagens, e os alanos tinham uma reputação de crueldade implacável, que os vândalos – cujo nome se havia de tornar proverbial – lhes disputavam com frequência” (D. Rops. p. 67). O saque, o sangue e o assassinato marcavam por todo canto a passagem das hordas devastadoras. “Na sua maioria, são homens corpulentos, fortes, desordeiros, cobiçosos” (D. Rops. Vol. II. p. 65). Os nórdicos, porém, eram mais assimiláveis, enquanto os asiáticos visavam a aniquilação e a escravidão. Por isso aos hunos, liderados por Átila, coube o título de “flagelo de Deus”.
As invasões propriamente ditas começam no século V e se estenderão o século X, tempo em que se dará o processo de conversão dos bárbaros à fé cristã e que gerará a Europa. Os vikings serão batizados apenas no ano de 911. Eram igualmente dados à pilhagem, massacres e incêndios. O furor dos nórdicos e o mal que faziam às populações católicas, levou a Igreja a incluir nas litanias a invocação: A furore Normanorum libera nos, Domine – Da fúria dos nórdicos, livrai-nos, Senhor.
Havia um outro agravante relativo aos primeiros bárbaros: com exceção dos francos que eram pagãos, os demais eram arianos, o que fazia dos vândalos e dos visigodos, violentíssimos por natureza, inimigos mortais da Igreja. O arianismo bárbaro, além dos erros, possuía outras deficiências como um clero ignorante e sem contato com a cultura clássica. Nunca tiveram algo que se comparasse aos mosteiros ou aos bispos católicos. É possível assim delinear o que estava diante do mundo romano que desabava e que somente de pé estava a Igreja.
A Igreja: baluarte da civilização
Muitas, sem dúvida haviam sido as conquistas da civilização greco-romana, mas elas deviam ser elevadas pelo encontro com a fé cristã. Ao tempo dos bárbaros dois processos acontecem simultaneamente: o encontro, a purificação e a elevação da cultura clássica e o encontro dos povos oriundos de fora deste círculo com este mesmo processo. Eles serão recebidos, quando vem, ou procurados, quando permanecem em distantes paragens, por bispos, monges e missionários.
As hordas bárbaras foram “recebidas” por homens santos e valentes que os repeliam, intimidavam, ou, uma vez rendidos, os dominavam lenta e suavemente através da fé, que gera cultura, etc. E não só, muitos desses santos foram até ao encontro dos bárbaros em suas terras a fim de evangelizá-los como São Patrício para a Irlanda (séc. V), Santo Agostinho da Cantuária, para a Inglaterra (séc. VI), São Columbano para a Escócia (séc. VI), São Bonifácio para a Alemanha (séc. VIII), São Willibrodo para os Países Baixos (séc. VIII) e os Santos irmãos Cirilo e Metódio para os povos eslavos (séc. IX).
Houve também um movimento de resistência e repelência a Átila em Troyes, pelo bispo Lobo; em Órleans, o bispo Ainon que inclusive o enfrentou; em Paris, na jovem Genovena que diante do tremor dos homens bradou: “Que os homens fujam, se já não são capazes de lutar. Nós, as mulheres, rezaremos tão intensamente a Deus, que Ele não poderá deixar de ouvir as nossas súplicas”; São Paulino de Nola em relação a Alarico após o saque de Roma; Quodvultdeus, diácono de Santo Agostinho e posteriormente bispo de Cartago, organizou um verdadeiro plano de resistência aos vândalos e profetizou: “O Cordeiro os vencerá!” E, merece destaque, o brilhante testemunho de São Leão Magno que vai encontrar Átila no norte da Itália, a pedido de Valentino III. O Pontífice obtém que o carnífice retroceda com suas tropas e não se abata sobre Roma. Por onde passavam as hordas bárbaras as igrejas eram incendiadas e pilhadas, os mosteiros profanados em seus monges e virgens, as populações dizimadas.
Dois fenômenos são ainda dignos de nota. Houve também bispos que interviram com homilias e escritos quanto à catástrofe que se abatia sobre o Império e a cultura clássica: São Máximo de Turim, São Pedro Crisólogo, Santo Agostinho e o seu De Civitate Dei – A Cidade de Deus. O contraste bárbaro fazia com que a lucidez do santo bispo de Hipona vislumbrasse a nobre e imperiosa missão que a Igreja tinha diante de si. O que São Gregório Magno compreenderá e porá em prática tanto em relação aos lombardos, quanto enviando companhias missionárias a fim de ganhar para Cristo os bárbaros. Podemos situar ainda nesse fenômeno teórico-discursivo com embocadura inevitável na atuação da Igreja Boécio e Cassiodoro, homens católicos, e que serão conselheiros de Teodorico, rei dos ostrogodos.
O segundo fenômeno é o da percepção de São Remígio, bispo de Reims, e São Avito, bispo de Vienne, quanto aos francos. Enquanto as outras populações bárbaras haviam caído na heresia ariana, os francos, liderados por Clóvis, continuavam pagãos. Prontamente se põem a prover uma esposa católica para o rei pagão, e esta será a Rainha Clotilde, cujo testemunho de esposa e mãe católica, obterá a conversão do marido e com ele os súditos: era o nascimento da “filha primogênita da Igreja” a França. Ali se dá a síntese entre três elementos: o germânico, o romano e o católico. O caminho estava aberto à cristandade: “o bárbaro se civilizava, o germano se romanizava e o pagão se tornava católico” (Sáenz. p. 258).
Da Espanha à Inglaterra acontecerá o mesmo. Na Inglaterra Bertha, neta de Clóvis, se casa com Ethelberto, rei de Kent. A piedosa rainha obterá acolhida de Santo Agostinho de seus missionários e a conversão do rei e seus súditos. Na Espanha, o casamento da católica Ingud, descendente de Santa Clotilde, com Hermenegildo, filho do visigodo e ariano, portanto, inimigo da fé católica, Leovigildo, obterá junto a São Leandro, arcebispo de Sevilha, a conversão do marido, que será martirizado no ano de 585. Seu irmão, Recaredo, impactado com o testemunho e os milagres que se operavam junto ao túmulo do irmão, se converte e uma vez sucedendo o pai, desfere o golpe mortal contra a heresia ariana que tem ali o seu ocaso.
Houve um elo que ligou essa cadeia de grande bravura diante das populações bárbaras: o monaquismo. Os mosteiros tornaram-se “oásis de paz” no meio de tanta guerra e violência, pois exerciam fascínio sobre os bárbaros, por três razões, as elenca padre Sáenz (op. cit. p. 283-284): era próprio dos bárbaros a fidelidade ao chefe, nos mosteiros se devia a obediência ao abade; era próprio dos bárbaros a honra e a fidelidade, as quais norteavam-se na figura do herói de guerra, os monges tinham por ideal o sacrifício e a santidade, e como exemplo os santos e os mártires; os bárbaros tinham consigo a tradição oral da poesia heroica, a Igreja a tradição literária da Sagrada Escritura e dos feitos dos santos. Estava sedimentado o caminho para canalizar e direcionar para a edificação da Cidade de Deus o ímpeto e a força dos bárbaros.
Os mosteiros foram salvaguarda e focos de transmissão da cultura, com suas bibliotecas e escolas, que fundavam-se em alicerces sólidos: o Ofício Divino, “escola de beleza” seja pelos ritos que pela arte que dali emana, e o trabalho santificado, desde o scriptorium dos copistas até o trabalho manual e o campo, cujas atividades foram enobrecidas pela Igreja. Era o compêndio da nova civilização que estava sendo plasmada: ora et labora – reza e trabalha. Dos mosteiros deve-se dizer que acima de tudo foram “fábrica de santos” pois dali saíam os bispos e missionários que foram educadores dos bárbaros e “pais” da cristandade.
Os bárbaros estão de volta!
Quem são? De onde vem? O que procuram? São questões das quais não se pode fugir. Os bárbaros de hoje carecem igualmente da graça e da verdade do Verbo Encarnado e que fez da Igreja depositária de imenso tesouro. Embora estes mesmos bárbaros se sintam atraídos e façam uso das conquistas da civilização cristã, todavia, maliciosa e, na melhor das hipóteses, ignorantemente, repelem a causa de tal herança: a Santa Igreja. O que faz destes bárbaros de certa forma mais culpáveis que os primeiros, mas nem por isso mais imbatíveis do que os outros.
Como a Igreja deve se dirigir aos bárbaros de nossos dias? Deve ser outra questão impreterível. Os católicos, devemos “recebê-los”, acima de tudo, com o testemunho dos santos (sabedoria, fortaleza, ascese, e toda uma torrente de virtudes de resistência e ofensiva) assim como ter o olhar naqueles que forjaram a civilização cristã extraindo princípios e referenciais, além de ser para nós grandes intercessores no Céu, bem como impormos uma resistência entranhada, assim como uma contraofensiva implacável aos seus ataques. E as armas são as mesmas de sempre: autêntica santidade de vida, fervor e audácia apostólica e uma educação genuinamente católica.
Referências
- Três obras principais foram usadas na composição desse artigo:
- ROPS, D. A História da Igreja de Cristo. Vol. II: A Igreja dos tempos bárbaros. São Paulo: Quadrante, 2018.
- SÁENZ, A. História da Santa Igreja. Tomo I. Do nascimento da Igreja ao islamismo. Rio de Janeiro: CDB, 2019.
- BLOCH, M. A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70, 1982.